segunda-feira, 23 de abril de 2007

Apnéia


Enchi os pulmões de ar, inutilmente esvaziei e enchi novamente - agora com um pouco mais de vigor, só pra ter certeza: Não respirava.
O tempo escorregou vagarosamente, como manteiga derretendo sobre o ferro morno; Meus pensamentos se ordenaram e numa perfeita calma pude apreciar o que, não sei por que, julguei serem meus últimos momentos.
Ao passo que um alarme iniciava sua insistente e aflita sinfonia, eu, mesmo com a vista já um pouco embaçada, acompanhava a enfermeira atravessando o quarto em seu jaleco branco – minha fantasia perfeita.
Estava morrendo? Estava feliz.
- Você pode me escutar? – repetia ela com convicção – Pode?
Claro que posso – pensava eu – escuto perfeitamente”.
Mas já não podia nem mais mover os lábios.Meus olhos agora somente notavam a claridade. Não, creio que não era a luz branca que dizem ver antes da morte, talvez fosse apenas o lustre localizado sobre meu leito.
Não respirava, já não me movia e pouco sentia.
- Pode me escutar? – dessa vez mais aflita.
Não sei por que ainda podia escutar aquela voz. O restante era silêncio, um silêncio celestial, nem mesmo meus pensamentos produziam ruídos capazes de quebrar o profundo silêncio daquele momento.
Silêncio... Eu não respirava.
Como uma implosão algo rasgou a pele de meu peito, e um gosto amargo veio em minha boca; Voltaram os alarmes e pude sentir um sopro agudo saído de dentro de um pequeno cano, a essa altura já dentro de minha garganta.
Respirava.
Ela, a enfermeira, sorria satisfeita. Missão cumprida.
Desejei profundamente voltar àquele mundo de silêncio e branquidão, depois vi que era certo; questão de tempo.
Vou ter que esperar.
[ricardo de oliveira]

Um comentário:

Bruna Rauber disse...

Meu amor...
você é brilhante...
adoro ler o que você escreve!
um dia vou montar um livro com isso!

te amo muito, ricardo!